sábado, março 27, 2004
Bus Trip Music
Descobri recentemente um flagelo musical ainda mais gritante do que a música de elevador e do que os cantores-improvisados-com-a-mania-que-sabem-cantar-só-porque-têm-jeito-para-agarrar-num-microfone. Se o cioso leitor ainda não adivinhou, falo obviamente dos atentados sonoros que se fazem sentir em médias ou longas viagens de grupo. Pior ainda que a mais do que duvidosa selecção musical do DJ de serviço (a maioria das vezes o sacana do chaffeur), limitada ao corriqueiro Fado (mal menor), às estações das rádios provincianas (rádio clube matosinhos, festival, placard, etc, onde se podem conhecer os nomes mais originais das donas de casa portuguesas e os seus "gostos" musicais) só mesmo (não, não... não cantem a Mila, nããããooo!!!) o coro imenso, desafinado e deveras irritante de vozes que insistem em manter as goelas entretidas a viagem toda a cantar as 50 músicas mais merdosas do século XX. Mais inane ainda é o facto de essas pobres almas só conseguirem cantar o refrão, sendo o resto da canção uma série insistente de "mnha mnha... tra la la la.... fiu fiu.... WELCOME TO THE HOTEL CALIFORNIA!!". Não admira que tenha um trauma de estimação a transportes públicos...
Anónimo 00:52
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Kawasaki: é talvez a única palavra que sei dizer e escrever em japonês (e ainda assim não tenho a certeza) e acreditem depois de verem Lost in Translation não aprendi muitas mais, talvez mesmo nenhuma... O que aprendi foi o que um grande filme tem, invariavelmente, uma grande banda sonora. Enquanto passeava os meus olhos pelo deslumbrante enredo da película, os meus ouvidos afogavam-se em sons que, subtilmente, me faziam entrar no espírito do filme. "Alone in Kyoto" dos franciús Air, "Sometimes" do grupo My Bloody Valentine ou "Just like honey" dos The Jesus and Mary Chain são apenas alguns exemplos. "Just like honey" consegue mesmo atribuir uma dimensão ainda mais profunda ao filme de Sofia Coppola e, no fim, é o chocolate que recobre o seu delicioso bolo (nunca gostei muito de cerejas, admito...). Vindo de quem vem e com este excelente panorama musical (a Scarlett também ajuda) era difícil Lost in Translation não ser tão bom como é...

Alexandre 00:51
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Venham mais dez: a melhor rádio do mundo fez 10 anos de existência... A adolescência da Antena 3 adivinha-se, como não poderia deixar de ser, fértil em qualidade. Os programas da 3 são a razão pela qual ainda manifesto algum interesse em ligar o rádio... A boa música é uma constante e os programas de autor, os bons e sempre interessantes programas de autor, estão lá... Indiegente, o talk-show Bons Rapazes, Portugália, MQ3, M, Alta Tensão e muitos mais. Enquanto os outras rádios nacionais (e não só) definham e enverdam por caminhos de estupidez musical, onde nem lugar há para alguma da boa música que se faz no país dos F's, a Antena 3 parece ir em sentido contrário e está cada vez melhor (mesmo sem nenhuma concorrente à altura). Por tudo isto e cada vez mais, a 3 merece um lugar de destaque entre os Indulgentes. Que continue a melhor e... Happy Birthday!!
Alexandre 00:20
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sexta-feira, março 19, 2004
Procurados/Desaparecidos
Encontrava-me placidamente a limpar o pó à minha extensa e variada discoteca, quando me dei conta de umas desgradáveis lacunas na pilha. Pensei cá para os meus pêlos peitorais: "Joni, calma, decerto estarão por aí algures a servir de base de copos improvisada ou espalhados nos locais mais insuspeitos". Após ter remexido tudo o que cá em casa não se mexe e de ter descoberto coisas que procurava há anos (curioso que só as encontre quando já não preciso delas) enfrentei a realidade que há muito o meu superego tentava ludibriar (sacana, é do mais imaginativo que há): os discos desaparecidos eram nada mais nada menos do que discos emprestados às pessoas erradas. Entenda-se pessoa errada aquela com que possuímos pouco contacto ou cujo convívio é-nos dispensável e temporário. Acto contínuo, possuo a estranha e nada saudável tendência de seleccionar sujeitos emprestantes (passe-se o neologismo) com esse mesmo perfil. Às tantas já perdemos as contas aos álbuns emprestados, às tantas as pessoas não se pronunciam quanto ao seu paradeiro, às tantas esses indivíduos deviam de ser sodomizados pelo Motombo ou derivados. Façam um favor a vós próprios e considerem um disco a idêntico nível de um desodorizante roll-on, da roupa interior e de uma amante oficial (e legal): pessoal e intransmissível, até se extinguir a respectiva utilidade.
Anónimo 23:51
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domingo, março 14, 2004
They're feeling sinister: depois de se conhecerem num bar em Glasgow logo juntaram os trapinhos musicais e fizeram isso mesmo. Música! Música à la Belle & Sebastian. Em todas as dimensões que palavra pode ter. Gravaram o primeiro disco "Tigermilk" em 3 dias e em oito anos mais cinco se seguiram. Em termos comerciais o maior êxito foi o álbum "Fold your hands child you walk like a pasant" que os chutou pela primeira vez para o "Top of the Tops". Contudo as melhores críticas vieram no seguimento do excelente disco "If you're feeling sinister" e de músicas como "Get me away from here, I'm dying" ou "Like Dylan in the movies". Estes manos escoceses (são ao todo 7) atiraram para o mercado no passado ano o último disco "Dear catastrophe waitress", o primeiro sem a responsável pelas background voices (e mesmo vocalista principal em algumas faixas) de todos os trabalhos anteriores, Isobel. Os gajos realmente safaram-se bem e lançaram também um DVD. Sem dúvida que são uma grande banda (como já disse são 7) que produzem do melhor pop-folk britânico da actualidade. Pena é que não apareçam por cá de vez em quando (o que até se compreende). Mas o que vale é que as músicas (todas) são realmente boas e orelhudas (claro que não estão ainda ao nível de um Emanuel como é evidente!!) e ganham uma dimensão estranhamente bela na Primavera que, a passos largos, se vai aproximando (já não era sem tempo, Venham o pólen e as alergias, bolas!!).
Alexandre 23:20
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sábado, março 13, 2004
Contra quem gosta de silenciar: os estrondos foram o caminho para o silêncio que se seguiu... Alguém quis silenciar o mundo uma vez mais mas é difícil silenciar quem não se conforma... A manifestação de ontem em Madrid, com 2 milhões pessoas a marchar contra uma "premeditada ausência de som" provou isso mesmo. Para que não haja silêncio nunca este indulgente sugere que haja música sempre. A arte que, como nós, não se conforma com o silenciar do mundo. A reflexão sobre a actualidade deve ser feita de forma subtil e com a grandiosidade de uma banda sonora que vos faça enfrentar esse vazio sonoro. Remeto-vos, assim, para os álbuns Agaetis Bjurn e () dois trabalhos fantásticos do colectivo islandês Sigur Rós. Os sons contrastantes deste grupo fazem, sem dúvida, mossas na nossa forma de ver o mundo e de o viver já que são de uma intensidade e emotividade assinaláveis. Espero que sigam o conselho e interiorizem estes discos cujos sons vos farão sonhar, ou então não...
Indulgentes apoiam todos aqueles que não conseguem vencer o silêncio, que os maiores estrondos por vezes causam. Para Madrid...
Alexandre 00:13
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quinta-feira, março 04, 2004
Pato Assado: certo dia ouvi um pato. Só que era um pato especial. Não era um pato daqueles que vêm com batatas ou arroz. Nada disso. Era um que falava, melhor, cantava, português. Quando me deparei com os sons do tal pato fiquei quase hipnotizado (quase envergonhado até, porque ser hipnotizado por um pato é inverter as regras da inteligência). Estou a falar, para quem ainda não percebeu (acredito já todos tenham percebido por esta altura) dos brasileiros Pato Fu. O disco de 2002 gravado ao vivo para a MTV para comemorar os 10 anos da banda é, realmente, um grande disco. Entre outras grandes canções, há duas que me prendem de imediato como drogado ao seu "cavalo", são elas a versão mais madura de "Eu" e a deliciante "Canção pra você viver mais". São apenas duas faixas de um álbum grande (explorem-no!), de uma banda grande, de um grande Pato que por nossas terras não voa ( talvez devido aos assassinos caçadores "tugas" que adoram apontar-lhes friamente as armas ;))
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